E quando a vida te tira tudo, inclusive a nacionalidade??? Há um aglomerado de pessoas em vários cantos de Manaus, são pessoas que seguiram em frente sem ao menos terem noção de onde ir. Impulsionadas pela lei da sobrevivência, agarraram-se as circunstância do que aparentemente se mostrava um porto seguro.
Pessoas que foram empurradas para o abismo do desconhecido onde ninguém conhece suas histórias e desconhecem suas dores. Pais de família que se viram expulsos da moradia e foram obrigados a trocar o aconchego do lar pelo desamparo da rua. Profissionais que perderam emprego, identidade e dignidade. Empresários que perderam mercado, o prumo e o rumo. E tantos outros rostos que perderam a sombra, o reflexo e a imagem do que é ser humano..
Voluntários da ong Barriga Cheia / Foto : Divulgação
Para eles o mundo não é um espaço aberto com infinitas possibilidades… Sentem-se asfixiados pelo desconhecido, engessados pelo medo e insegurança, emparedados pela falta de perspectiva e limitados pelo idioma. Seus olhares vagos se perdem no infinito sem divisar qualquer probabilidade de futuro. Seus ombros caídos e rostos voltados para o chão personificam a derrota. Os braços antes frenéticos na arte de manter seu sustento hoje se encontram inertes como se todo trabalho do mundo tivesse sido usurpados. Estão apáticos, consumidos pela tristeza, são o retrato fiel do desespero de quem perdeu tudo, e a cada dia perdem a si mesmo… Quem se predispõe a ajudar, furta-se do direito de rotular, julgar e generalizar.
SE COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO FAZ DO MUNDO UM LUGAR DE TODOS!!!Voluntários da ong Barriga Cheia / Foto : Divulgação
Ele estava ali, jogado no canteiro no meio da avenida
Ele estava ali, jogado no canteiro no meio da avenida, como tantos outros que encontramos ao longo do caminho. Pela estatura aparentava 30 anos, mas a fisionomia marcada pela dor dava-lhe uma aparência de bem mais. Se aconchegava a terra revestida por uma grama rala que lhe sustentava o corpo em posição fetal. A simbiose entre ele e o solo era tão grande que passava-nos a sensação de que se sentia dentro de um ventre: encolhido, frágil e vulnerável. Tão quadro, comoveu-nos a alma.
Ao primeiro toque do nosso companheiro para acordá-lo e alimentá-lo – Ele desperta, abre os olhos esbugalhados, ergue os braços tentando alcançar o invisível e balbucia: Mãe…
Depois se vira para o lado e seus olhos encontram os nossos – Então, ele fala: Minha mãe disse que vocês viriam…
Pega a marmitex, e vemos um misto de alegria e gratidão em seu rosto.
Ele não era só um andrajo humano… Ele era um filho que ainda trazia no peito o resquício do amor de uma mãe.
Nós pais costumamos falar: pelos meus filhos eu faria qualquer coisa! …E pelo filho dos outros???
Atendido pela ONG Barriga Cheia / Foto : Divulgação