Trajetória como Filantropa
Somos frutos das nossas escolhas, elas nos representam. Quando iniciei no voluntariado, meu primeiro trabalho foi na Campanha Auta de Souza que consistia em bater nas portas das pessoas para pedir alimentos para doações. Na época éramos recebidos com carinho e atendidos prontamente. O que não ocorre hoje, não pelas pessoas serem maus, mas por não terem a certeza de sermos bons. Nesse trabalho aprendi sobre a beneficência.
Meu segundo trabalho foi realizando visitas na Colônia Antonio Aleixo principalmente no Hospital Chapot Prévost, onde conheci uma moça que havia nascido com hidrocefalia e que havia sido deixada lá, na época eu deveria ter uns 20 anos. Sua cabeça tinha mais ou menos o formato de um coração bem grande, ao passo que o corpo era diminuto. Junto à ela, buscava falar coisas engraçadas e ficava feliz ao vê-la sorrir e até gargalhar. Com ela aprendi que a verdadeira caridade são as coisas que saem do coração e fazem a diferença na vida do outro. Não tinha nada a oferecer além de mim mesma, mas me sentia gratificada ao vê-la alegre com minha presença. Acho que aquelas pessoas me ensinaram muito da vida mesmo não me dizendo nada, seus exemplos falavam por si só.
Meu próximo trabalho foi na ADVAM, Associação de Deficientes Visuais do Amazonas, na época o Sr. Ari, um velhinho de cabelo branco e olhos azuis era o Presidente. Seu bom humor, carinho e docilidade me acorrentaram ao seu peito. Lembro com saudades e admiração da sua atuação e otimismo, mesmo estando preso a escuridão dos olhos, deixava o sorriso livre para cativar e encantar as pessoas. Juntos realizamos a “Campanha do kilo, nos Supermercados”. Essa experiência me fez perceber o quanto são aguçados os outros sentidos de quem é privado da visão. Nunca presenciei revolta em nenhum deles, mas uma resignação e uma fé inabalável que os faziam transpor todas as barreiras do cotidiano. A visão nunca foi um fator limitador aos seus sonhos, e o ir e vir o faziam sentir-se livres. Com eles aprendi o que é ter coragem.
Junto à LAAC, Liga Amazonense Contra o Câncer, não tive uma participação ativa, era apenas mais uma que depositava mensalmente uma certa quantia para ajudá-los, afim de me auto-convencer que estava fazendo minha parte junto a uma sociedade tão frágil, sofrida e cheia de diferenças. Aprendi que é cômodo não sairmos da nossa zona de conforto.
Com o Lar das Marias, fui um pouco mais atuante, ajuntava todos os domingos latinhas doadas pelo Pagode do Ases, vendia e repassava o dinheiro à mesma. Realizava festas filantrópicas e vendia blusa para ajudá-las, mas não participava das atividades internas, apesar de me inteirar sobre o trabalho. Nutro um grande respeito por essa Instituição que muito ampara as mulheres portadoras de câncer que deixam seu domicílio para buscar ajuda em lugares distantes longe dos familiares.
Com elas aprendi o quanto precisamos ser fortes no momento da dor. Essa mesma dor que me levou a criar e ser Presidente da Associação Beneficente Barriga Cheia, uma Associação que a exemplo de tantas outras, busca fazer sua parte por compreender que uma pequena ajuda é melhor que muita pena.

